# Capítulo 23: Calma e Tempestade
Loren jazia no ch?o, o corpo contorcido em uma pose de humilha??o e desespero. A dor física era intensa, mas a agonia de sua alma era ainda maior. Seu poder, antes t?o avassalador, havia sido drenado, subjugado, como se ela fosse um rato encurralado. Ela ergueu os olhos para o céu, buscando o olho gigante que antes a observava, que antes a guiava, que antes a preenchia com a promessa do Vazio. Mas o olho n?o estava mais lá. Apenas o céu noturno, indiferente, a encarava. Era como se Skull, a entidade que ela tanto idolatrava, a tivesse abandonado, desistido dela.
"N?o!" ela gritou, sua voz rouca e quebrada, um lamento que se perdeu no ar carregado de destrui??o. "Skull! Meu mestre! Por favor! N?o me abandone!" Lágrimas escorriam por seu rosto sujo de sangue e poeira, misturando-se com a lama da humilha??o. "Eu te imploro! Amor! Piedade! Eu te dei tudo! Minha alma, meu corpo, minha devo??o! Por que me abandonas agora?" Ela se contorcia no ch?o, os dedos arranhando o concreto quebrado, buscando uma resposta que nunca veio. O silêncio era a única testemunha de sua súplica desesperada, um silêncio que gritava abandono.
K observava a cena com um sorriso de desprezo que mal curvava seus lábios. A energia roxa que a envolvia pulsava suavemente, um contraste frio com o desespero febril de Loren. "Vender a alma é algo comum," K disse, sua voz calma e cortante como uma lamina. "Mas ninguém gosta de saber o que vem depois, n?o é? A verdade é que você nunca foi nada além de um brinquedo. Uma ferramenta descartável para uma entidade que n?o se importa com ninguém além de si mesma." Loren ergueu a cabe?a, seus olhos injetados de sangue fixos em K, uma mistura de ódio e reconhecimento em seu olhar.
Com um esfor?o imenso, Loren se levantou, cambaleante, mas com uma dignidade recém-descoberta em sua derrota. Ela virou as costas para K, juntou as m?os e se ajoelhou no ch?o, a cabe?a baixa, como se estivesse orando. N?o havia mais fúria em seu rosto, apenas uma tristeza profunda e uma aceita??o resignada. Era a imagem de uma fé quebrada, de uma devo??o traída, mas ainda assim, uma devo??o. K observou-a com aten??o, o desprezo em seus olhos se misturando com uma pontada de algo mais complexo – talvez pena, talvez a compreens?o amarga de um destino que ela mesma havia evitado.
"Seja rápida," Loren sussurrou, sua voz agora estranhamente serena, quase um suspiro. "Eu quero morrer do mesmo jeito que vim ao mundo. Nua. Sem nada." A frase era perturbadora em sua simplicidade, um pedido final de dignidade em meio à desgra?a. O rosto de K se contorceu em uma mistura de nojo e raiva. N?o era a raiva de um inimigo, mas a raiva de alguém que via a si mesma em um caminho que poderia ter sido, um caminho de servid?o e aniquila??o. Sem uma palavra, K avan?ou. Com um movimento rápido e brutal, ela afundou a cabe?a de Loren no ch?o. Um som úmido e nauseante ecoou, seguido por um silênsia assustador. O corpo de Loren convulsionou uma última vez antes de ficar inerte. A energia do Vazio, que antes pairava sobre a cidade, dissipou-se. O olho gigante no céu, que havia desaparecido, n?o deixou vestígios. Apenas o silêncio permaneceu, um silêncio pesado e opressor, pontuado apenas pelo farfalhar do vento entre os escombros.
K olhou para o corpo sem vida de Loren, uma sensa??o estranha de vazio preenchendo-a. Como alguém poderia aceitar tal destino? Como alguém poderia se entregar t?o completamente a uma entidade que a descartaria sem remorso? Ela varreu o olhar pela paisagem devastada. Prédios em ruínas, crateras no asfalto, fuma?a subindo lentamente para o céu. Parecia um campo de guerra, um testemunho mudo da ferocidade da batalha. Seus olhos se voltaram para o beco onde Orpheus havia deixado Mira e Lyra. Ele n?o estava mais lá. Um alívio sutil percorreu K. O garoto havia feito sua parte. Agora, ela precisava fazer a dela. Um pensamento sobre Zack a atingiu, n?o com preocupa??o, mas com um medo frio. Como ele reagiria ao saber que seus amigos estavam em estado de quase-morte? K come?ou a se mover, seus olhos vasculhando os escombros, procurando por sinais de vida, por pessoas presas sob as paredes e tijolos. A batalha havia terminado, mas as consequências estavam apenas come?ando.
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Longe da carnificina e do cheiro de morte, em um plano de existência que parecia pertencer a outro sonho, o sol beijava um campo de girassóis que se estendia até onde a vista alcan?ava. Suas cabe?as douradas seguiam o astro-rei em uma dan?a silenciosa e eterna, pintando a paisagem com tons vibrantes de amarelo e laranja. Ao longe, um lago de um azul t?o profundo que parecia refletir o próprio céu, abrigava peixes de todas as cores, que nadavam em cardumes cintilantes, suas escamas capturando a luz. O céu, um manto azul imaculado, era pontilhado por nuvens claras que flutuavam pregui?osamente, e, em uma anomalia mágica, estrelas brilhavam fortemente mesmo durante o dia, como diamantes incrustados em veludo. Pássaros de plumagens exóticas voavam em círculos graciosos, suas asas cortando o ar ao toque suave da luz solar, seus cantos melodiosos preenchendo o ar com uma sinfonia de paz. Era um paraíso, um oásis de serenidade, um lembrete da beleza que ainda existia no mundo, um contraste gritante com a escurid?o que se alastrava.
Mas a imagem idílica se desfez, estilha?ada como vidro. A camera se aproximou, n?o do campo, mas de um rosto. O rosto de Zack. Seus olhos, antes perdidos na contempla??o daquele paraíso efêmero, agora estavam fixos, duros, com a intensidade fria de um ca?ador que fareja sua presa. Um filete de sangue escorria de seu cabelo, tra?ando um caminho sinuoso por sua testa, uma mancha carmesim contra a pele pálida. Sua boca estava fechada em uma linha fina, uma express?o de raiva contida, de fúria silenciosa, que distorcia seus tra?os. A dualidade era palpável: a calma etérea do campo de girassóis e a tempestade violenta que se agitava dentro dele. A paz era uma ilus?o, e a realidade, um pesadelo que ele estava prestes a enfrentar.
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O céu se abria em um manto escuro, salpicado por estrelas que brilhavam com uma intensidade quase sobrenatural, enquanto uma lua de sangue, grande e amea?adora, iluminava o cenário com um brilho vermelho-carmesim. Zack estava em pé, ou o que restava dele, em um campo de casas de madeira em ruínas, a pouca luz que filtrava entre as árvores retorcidas criava sombras dan?antes e fantasmagóricas. A grama alta, úmida e fria, ro?ava em suas pernas, e o coaxar distante de sapos quebrava o silêncio opressor. Suas roupas, rasgadas e ensanguentadas, revelavam a pele marcada por cortes e contus?es. A Black Moon n?o estava com ele, nem qualquer outra arma. Ele havia sido arrastado para fora da cidade, para este lugar desolado, um palco para o que estava por vir.
à sua frente, as figuras que antes se apresentavam como idosos doces e meigos, agora eram monstros. Seus rostos, antes enrugados pela idade, estavam deformados por uma raiva primordial e um desejo insaciável de sangue. N?o havia mais vestígios de humanidade neles, apenas a crueldade fria de predadores. O idoso, com um sorriso que n?o alcan?ava seus olhos vazios, quebrou o silêncio. "Como você descobriu?" Sua voz era um sussurro rouco, mas carregado de uma amea?a velada.
Zack n?o respondeu. Seus olhos negros, endurecidos pela batalha e pela dor, varreram as auras dos dois. Um calafrio percorreu sua espinha. O poder que emanava deles era avassalador, um nível S+ que ele raramente havia encontrado. Um medo gélido o atingiu. E se n?o fosse apenas a energia? E se suas habilidades também fossem de Nível S+ ou, pior, Nível Drag?o? A ideia o fez cambalear. Se esses dois eram os guardi?es, os porteiros, ent?o o que os esperava adiante? Se eles estavam atrás do bebê de olhos dourados, ent?o Zack tinha que assumir o pior: eles eram os mais fortes, os mais perigosos. Ele levou a m?o ao quadril, buscando instintivamente suas facas, seus pergaminhos, mas n?o havia nada. A Black Moon, sua companheira de mil batalhas, estava selada, abandonada por sua própria escolha na noite anterior. Uma escolha que agora parecia um erro fatal. Ele nunca imaginou que uma luta assim chegaria t?o rápido, e muito menos que um bebê de olhos dourados estaria no centro de tudo.
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A senhora, com um sorriso que se estendia de orelha a orelha, observou o silêncio de Zack. Seus olhos, antes cheios de uma falsa do?ura, agora brilhavam com uma luz sinistra. "Por que n?o está com a Black Moon, querido?" ela perguntou, sua voz carregada de uma preocupa??o genuína que soava ainda mais perturbadora vinda dela. Zack apertou os punhos, a raiva e a frustra??o borbulhando dentro dele. Ele estava em desvantagem, gravemente ferido, e agora descobria que seus inimigos sabiam sobre sua espada. A surpresa o atingiu como um soco.
O idoso, com um olhar sério e triste, deu um passo à frente. "Você está bem, Zack?" ele perguntou, a voz suave, quase paternal. "N?o pode abandonar sua companheira. Qual seria a gra?a de lutar com alguém sem bra?os?" O afeto em suas palavras era um veneno, uma manipula??o cruel que Zack mal podia suportar. "Quem s?o vocês?!" Zack gritou, a voz rasgando o ar, um desespero crescente em seu tom. "Como sabem da Black Moon?!"
Os idosos se entreolharam, e ent?o, em uníssono, suas vozes se uniram em um coro macabro que ecoou pela noite. "Nós te amamos, querido Zack." A luz da lua de sangue banhava seus rostos, transformando o afeto em algo grotesco, uma cena perturbadora que fez o est?mago de Zack revirar. Ele deu um passo para trás, a mente em parafuso. "Pera..." ele murmurou, a palavra se perdendo em um zumbido agudo que invadiu seus ouvidos. Ele olhou para a lua, e o horror cósmico se manifestou. A lua de sangue se transformou, n?o em um orbe celestial, mas na Vis?o, o olho gigante que tudo vê, pulsando com uma luz vermelha e negra. O zumbido em seus ouvidos se intensificou, uma dor lancinante que amea?ava rasgar sua mente. "Saia da minha cabe?a!" Zack gritou, desesperado, caindo de joelhos, as m?os apertando a cabe?a como se pudesse esmagar a vis?o. Mas o olho permanecia, observando, julgando, penetrando em sua alma.
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Enquanto Zack se contorcia no ch?o, a Vis?o da lua de sangue pulsando em sua mente, os idosos come?aram a cantar. N?o era uma melodia, mas um cantico gutural, uma litania de horror que parecia vir das profundezas do Vazio. As palavras, embora ininteligíveis, ressoavam com uma malícia antiga, uma promessa de aniquila??o. Era a can??o de Skull, um hino de devo??o e destrui??o que penetrava na mente de Zack, distorcendo seus pensamentos, alimentando seu desespero.
"*Nos olhos de Skull, a escurid?o dan?a*," a voz da idosa sibilou, sua melodia arranhando a alma de Zack. "*Em seu sussurro, a esperan?a se cansa*." O idoso juntou-se a ela, sua voz grave e cavernosa. "*O Vazio chama, um abra?o sem fim*." Ambos cantaram em uníssono, as vozes se entrela?ando em uma harmonia profana. "*E em sua glória, você se perde em mim*."
Zack sentiu-se tonto, a cabe?a girando, o mundo ao seu redor se desfazendo em um borr?o de cores e sons distorcidos. A can??o era um veneno, infiltrando-se em cada célula de seu corpo, tentando roubar sua sanidade. O desespero o consumia, uma onda avassaladora que amea?ava afogá-lo. Ele n?o podia ceder, n?o podia se render. Se ele caísse, quem protegeria Orpheus? Quem protegeria Mira e Lyra? A imagem de seus amigos, feridos e vulneráveis, piscou em sua mente, um farol em meio à escurid?o.
Com um rugido primal, Zack ergueu o punho e desferiu um soco brutal em seu próprio rosto. O impacto foi seco e violento, o som de ossos estalando ecoando na noite. Ele voou três metros para trás, caindo pesadamente no ch?o, a dor física uma ancora que o puxava de volta à realidade. O sangue jorrou de seu nariz e boca, manchando o ch?o, mas a dor, a dor era real, era tangível, e o impedia de sucumbir ao torpor induzido pela can??o de Skull. Ele n?o dormiria, n?o se renderia. N?o agora.
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Mal o corpo de Zack atingiu o ch?o, os idosos se moveram. N?o com a lentid?o que suas aparências sugeriam, mas com uma velocidade assustadora, em perfeita sincronia. O ch?o sob seus pés se quebrou, estilha?ando-se em crateras minúsculas a cada passo, um testemunho de sua for?a descomunal. Eles se lan?aram contra Zack, punhos cerrados, prontos para desferir golpes que teriam esmagado um homem comum.
Mas Zack n?o era comum. Mesmo ferido, mesmo sem suas armas, seus instintos de ca?ador eram afiados como navalhas. Deitado no ch?o, ele ergueu os pés, interceptando os punhos dos idosos com uma precis?o milimétrica. O impacto foi brutal, mas ele conseguiu parar o ataque. Em um movimento fluido, ele apoiou as m?os no ch?o e girou o corpo, desferindo um chute duplo que atingiu o rosto de ambos os idosos, afastando-os para trás com for?a. Eles cambalearam, mas n?o caíram, seus olhos fixos em Zack com uma mistura de surpresa e fúria.
Zack n?o lhes deu tempo para se recuperar. Ele saltou, impulsionando-se com uma agilidade surpreendente, e desceu sobre eles como um falc?o, desferindo socos poderosos na cabe?a de cada um. Os idosos foram cravados no ch?o, a terra rachando sob o impacto. Zack aproveitou a breve pausa, seus olhos varrendo o céu. A Vis?o ainda estava lá, pulsando na lua de sangue, mas ele notou algo mais. Uma energia sutil, mas crescente, emanava dos idosos, conectando-os à lua. Eles estavam realizando um ritual de fortifica??o, usando a energia da Vis?o para amplificar seus próprios poderes.
Ele n?o podia permitir isso. Com um rugido, Zack se afastou dos idosos. Ele juntou os dedos, sua aura negra explodindo para fora de seu corpo, expandindo-se rapidamente. A energia escura se espalhou ao redor do ambiente, formando uma cúpula densa e impenetrável que cobriu a área da batalha. A cúpula n?o era para atacar, mas para isolar, para cortar a conex?o visual dos idosos com a lua, atrasando o ritual de fortifica??o.
Mas ele havia subestimado a astúcia de seus inimigos. Mal a cúpula se formou, a idosa apareceu atrás dele, seus bra?os finos, mas incrivelmente fortes, envolvendo-o em um abra?o sufocante. "N?o quero machucar você, querido Zack," ela sussurrou em seu ouvido, sua voz cheia de uma falsa ternura. "Isso dói no meu cora??o." Enquanto ela o segurava, o idoso se aproximou, desferindo uma série de socos brutais na barriga e no rosto de Zack. Cada golpe era um martelo, esmagando seus órg?os, quebrando seus ossos. Zack segurou o abd?men, tentando absorver o impacto, mas era demais. Ele cuspiu sangue no rosto do idoso, cegando-o momentaneamente, e desferiu um chute cego que o atingiu em cheio. Ele pisou no pé da idosa, que soltou um gemido de dor, e com um mortal para frente, conseguiu se libertar do abra?o, caindo em cima dela. Ele era um dos melhores lutadores do mundo, um mestre do combate corpo a corpo, e os idosos, apesar de seu poder, estavam come?ando a perceber isso. A Black Moon era uma ferramenta, sim, mas a verdadeira arma era Zack, e eles estavam prestes a descobrir o qu?o letal ele podia ser mesmo sem ela.
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Os idosos, percebendo que a sutileza n?o funcionaria, liberaram toda a sua aura. A cúpula negra de Zack estremeceu sob a press?o de um poder avassalador. Uma energia vermelha, densa e pulsante, irrompeu do corpo da idosa, enquanto uma aura azul gélida e cortante emanava do idoso. As duas energias se chocaram e se entrela?aram dentro da cúpula, criando um vórtice de poder que distorcia o ar. O ambiente ficou pesado, opressor, e Zack sentiu o peso de dois Nível S+ se voltando contra ele. O ar tornou-se denso, e cada respira??o era uma agonia, seus pulm?es queimando com o frio intenso que se espalhava. A grama sob seus pés endureceu, congelada, e o vapor saía de sua boca a cada expira??o.
"A ordem era n?o ferir você, querido Zack," a idosa disse, sua voz agora um eco distorcido, como se viesse de um abismo. "Mas n?o poderemos cumprir isso." A raiva borbulhou em Zack. "Quem deu essa ordem?!" ele gritou, mas n?o houve resposta, apenas o silêncio amea?ador que antecede a tempestade. Uma gosma vermelha e viscosa come?ou a escorrer do corpo da idosa, pulsando com uma vida própria. Era sua habilidade, uma substancia maleável que podia grudar, endurecer ou se tornar elástica conforme sua vontade. Ao mesmo tempo, o ar ao redor do idoso ficou ainda mais gelado, a aura azul se intensificando,
a aura azul se intensificando, congelando tudo em seu caminho.
Zack percebeu a gravidade da situa??o. Despreparado, sem a Lua Negra, sem suas facas ou pergaminhos, ele era um alvo fácil. Inteligência era sua única arma agora, mas mesmo isso parecia insuficiente contra tal poder. O maior ca?ador do mundo, o lendário Zack, estava em desvantagem esmagadora. Ele, que sempre fora o predador, agora se via presa, encurralado, ferido e com o destino de seus amigos em risco. O capítulo termina com Zack, o maior ca?ador do mundo, percebendo sua desvantagem e tornando-se a presa, com a amea?a iminente dos anci?os e suas habilidades aterrorizantes pairando sobre ele.

