27/08/2020 – México
Grava??o de campo – Fita 01
- clique seco -
Oi… h?…
se alguém estiver ouvindo isso depois, meu nome é Rachel Windsor. Eu tenho vinte anos e sou uma investigadora de rank 4 da OMCB.
Essa é uma grava??o pessoal… n?o é relatório oficial. é só pra… organizar a cabe?a.
Estamos no México.
Eu e minha irm?, Kelly.
A miss?o, teoricamente, é simples. Pelo menos foi isso que foi dito: investiga??o de possíveis liga??es entre Ernesto Moreno e uma organiza??o italiana chamada Máfia Oscura.
Soa chato. Parece chato.
Mas… miss?es “chatas” quase nunca s?o.
- som de passos, tecido sendo ajustado -
Kelly tá andando de um lado pro outro do quarto agora. Ela odeia esperar.
" Rachel, você já terminou essa fita? " a voz dela entra, seca. "A reuni?o é em vinte minutos."
" só mais um pouco. " respondo baixo.
"Isso n?o é terapia, é uma miss?o. " ela suspira. " E você n?o precisa registrar tudo."
"Eu sei."
Kelly é assim. Sempre foi. Direta, prática, impaciente. Ela já tem o cabelo preso, a arma checada, o tablet aberto com os arquivos do Ernesto.
Eu ainda estou tentando decidir se esse hotel barato é mais deprimente ou mais suspeito.
" Olha " ela continua " Ernesto Moreno n?o é burro. Se ele estiver envolvido com a Oscura, ele terá camadas. Empresas de atendimento, intermediários, nada direto."
"Ent?o você fica comigo, observe, anota, e n?o invente heroísmo. Entendeu?"
" Entendo… " digo, rápido demais.
Ela me encara.
" Rachel."
" Eu prometo. " engulo seco. " Eu fico atrás de você."
Kelly suavizou um pouco. Só um pouco.
" Você n?o fica atrás de mim porque é incompetente. " ela diz. " Você fica atrás porque é inteligente.
E porque alguém precisa prestar aten??o no que eu ignoro."
"Isso… ajuda mais do que ela imagina."
- bem distante de carros, buzinas —
O México é barulhento. Vivo. Quente.
E mesmo assim… sinto um frio estranho no est?mago desde que chegamos.
Talvez seja só ansiedade.
Talvez seja o fuso horário.
Ou talvez seja aquela sensa??o ruim que aparece quando algo está… errado demais pra ser nomeado.
" Rachel, sério, desliga isso. " Kelly diz, já na porta. "Se alguém encontrar essas fitas…"
" Eu sei. " desligo o trabalho de seguran?a da grava??o. " é só isso. Prometo."
— clique final —
28/08/2020 – México
Grava??o de campo – Fita 02
- chiado breve, fita girando -
…ok. Está gravando.
A gente já saiu do hotel.
Se alguém ouvir isso… estamos no bairro industrial, zona norte. Galp?es demais pra pouca gente. O tipo de lugar onde nada acontece e exatamente por isso tudo acontece.
Kelly anda alguns passos à frente. Ela sempre anda. Como se parar fosse perder controle da situa??o.
This tale has been unlawfully obtained from Royal Road. If you discover it on Amazon, kindly report it.
" Você ligou isso de novo, n?o ligou? " a voz dela surge baixa, sem virar o rosto.
" Só áudio. " respondo. " Sem imagem. é… pra caso a gente precise lembrar depois."
" Rachel, isso é evidência informal. N?o entra em relatório, n?o entra em tribunal, n?o entra em nada. Só entra na sua cabe?a."
" Justamente por isso."
Ela para. Suspira fundo. Olha em volta, certificando-se de que n?o tem ninguém perto.
"Você tá diferente desde que chegamos aqui."
" Diferente como?"
" Atenta demais. " ela diz. " Miss?es assim… n?o pedem sensibilidade. Pedem método."
" às vezes o método é sentir quando algo n?o encaixa."
Kelly me encara por alguns segundos. Depois balan?a a cabe?a e volta a andar.
" Por isso que você fica comigo. " diz. " Mas n?o confunde isso com lideran?a."
N?o respondo.
Só continuo gravando.
Encontramos o primeiro ponto ligado ao Ernesto: uma empresa de fachada. Moreno Servicios Logísticos. Três funcionários no papel, zero na prática. Port?o fechado, cameras novas demais pra um negócio falido.
Kelly escaneia o cadeado.
" Trocaram semana passada. " ela murmura.
Ela me lan?a um olhar rápido, quase aprovando.
Entramos pelo acesso lateral. Poeira, caixas vazias, cheiro de óleo velho. Nada ilegal à primeira vista o que, de novo, é suspeito.
" Marca esse lugar. "Ela passa a m?o no cabelo "Depois a gente volta com mandado."
" E se n?o der tempo?"
" Sempre dá tempo. " eu respondo firme demais.
Mais à frente, num café pequeno perto da avenida, encontramos Richard.
Ele n?o devia estar ali. E talvez por isso estivesse.
Americano. Uns trinta e poucos. Ex-analista de dados. Nome conhecido em relatórios internos da OMCB pediu desligamento há dois anos. Oficialmente por estresse.
Extraoficialmente… porque come?ou a fazer perguntas erradas.
" Rachel Windsor. " ele diz, sorrindo torto. "Nunca achei que fosse te ver fora dos arquivos."
" Você sumiu. " respondo. " A gente achou que estivesse morto."
" Quase. " ele bebe um gole do café. " Depende do ponto de vista."
Kelly n?o senta. Fica em pé, bra?o cruzado, postura de interrogatório.
" Fala logo, Richard." ela diz. " Por que você chamou a gente?"
Ele olha em volta. Abaixa a voz.
" Porque Ernesto Moreno é só a superfície. " diz. " A Máfia Oscura tá usando o México como campo de teste. Crian?as. Jovens. Experimentos com… coisas que nem a OMCB cataloga direito."
Meu est?mago afunda.
" Que tipo de coisas? " pergunto.
Ele abre a boca pra responder.
N?o responde.
O som vem antes.
Passos pesados.
Muito próximos.
Kelly vira primeiro. M?o já indo pra arma.
Tarde demais.
Algo corta o ar.
Um impacto seco no bra?o dela. Um grunhido. A arma cai no ch?o.
" No se muevan. " uma voz grave, quase entediada.
Eu levanto os olhos.
O homem é grande. Muito. Ombros largos demais pra roupa simples. Um fac?o pendurado nas costas, como se fosse extens?o natural do corpo. O rosto… tranquilo. Sem raiva. Sem pressa.
Richard empalidece.
" …merda. " ele sussurra. " El Matador."
O nome pesa. N?o como amea?a. Como constata??o.
" Vocês falam demais. " o homem diz. "Isso sempre dá trabalho."
Kelly tenta reagir. O segundo golpe vem rápido. Preciso. Ela cai de joelhos, ofegante.
" Kelly! " grito.
Minha vis?o treme. O gravador quase escapa da minha m?o.
" Rachel… corre. " ela rosna, entre dentes.
N?o dá tempo.
Uma m?o enorme se fecha no meu ombro. O aperto dói. Muito.
" Você é a que grava. " ele observa, curioso. "Interessante."
Richard tenta correr.
N?o chega a dar três passos.
El matador balan?a o fac?o.
O corpo cai certo partido em 2 .
Eu grito. N?o consigo impedir.
" Shhh. " El Matador diz, quase gentil. "Já acabou."
Algo pesado bate na minha nuca.
A fita ainda está girando quando eu caio.
A última coisa que entra no áudio é a voz de Kelly, fraca… mas viva:
" Rachel… lembra… do que eu disse…"
Depois, silêncio.
- fita segue rodando -
30/08/2020 – México
Grava??o de campo – Fita Final
- chiado pesado, fita iniciando com atraso -
- um estalo metálico, corrente rangendo -
…
…isso ainda grava?
Se alguém ouvir isso…
Meu nome é Kelly Windsor. Investigadora da OMCB. Rank 4.
N?o sei que dia é direito. Aqui embaixo n?o tem janela. Só concreto. Umidade. O som de água pingando em algum lugar que eu n?o vejo.
Estou presa a uma cadeira de metal. Pulsos e tornozelos amarrados com bra?adeiras grossas. N?o s?o improvisadas. Nada aqui é improvisado.
Meu bra?o esquerdo… - respira??o pesada — tem um acesso. Um tubo preso direto na veia.
Eles n?o tiram.
- passos se aproximando, ecoando -
Ele está vindo.
Sempre vem no mesmo horário.
" Teste número… " ele para, folheando papéis. " Ah. Perdi a conta. Cobaia Kelly Windsor."
A voz é calma. Educada até. Britanica. O sotaque entrega antes do rosto.
" Samuel Norton. " ele diz, como se isso significasse algo pra mim. " Doutor, se você prefere formalidades."
Ele chega mais perto. Consigo sentir o cheiro dele. álcool. Luvas de borracha. Algo químico que arde no nariz.
" Você ainda está consciente. Excelente. " ele sorri. " A maioria n?o aguenta tanto."
" Vai pro inferno. " minha voz sai rouca, mas firme.
" Já estou nele. " ele responde, sem se ofender. " Só estou tentando entender como vocês funcionam melhor que os outros."
Ele aponta para o tubo.
" Hoje vamos manter o fluxo constante. Sem picos. Quero ver quanto tempo seu corpo aguenta antes de… desistir.
O líquido azul come?a a descer.
é frio.
N?o.
Frio n?o descreve.
é como se alguém despejasse vidro líquido dentro da minha veia.
Meu corpo reage na hora. Espasmos. Dentes rangendo. Um grito que eu tento segurar falho.
" Anota isso. " ele diz para alguém que n?o aparece. " Dor intensa, mas sem rejei??o imediata. Fascinante."
Eu fecho os olhos.
Penso na Rachel.
- corte abrupto na grava??o -
- retorno com respira??o irregular -
N?o sei quanto tempo passou.
Ele voltou.
Sempre volta.
O líquido azul agora queima. Minha pele parece pequena demais pro que tá acontecendo por dentro. Meus músculos tremem sozinhos. N?o obedecem mais.
" Você sabe " Samuel diz, quase didático " o curioso sobre o medo da morte?"
N?o respondo.
" Ele n?o vem do fim. " ele continua. " Vem da perda de controle. E você… está perdendo isso lindamente."
" Rachel… " o nome escapa da minha boca antes que eu consiga segurar. " Ela… é melhor que eu."
Ele inclina a cabe?a.
"Ah. A irm?. A sensível."
" Ela… presta aten??o. " respiro com dificuldade. "Em coisas pequenas. Em pessoas."
Samuel faz uma anota??o.
" Apego emocional persistente. Mesmo sob estresse extremo. Interessante."
Eu rio, rio muito
" Derick era um idiota. "murmuro. " Por que ele escolheu a Rachel e n?o eu "
" Tentativas s?o irrelevantes. " Samuel responde. " Resultados s?o tudo."
O líquido aumenta.
Eu grito.
- fita avan?a, chiado constante -
Dia… dois?
Ou três?
Minhas m?os n?o sentem mais direito. Meus pés também n?o. Meu peito dói pra respirar. Cada inspira??o parece errada.
" Você está falhando mais rápido agora. " Samuel comenta. " é deprimente ver a morrer."
" Vai… se foder… " digo, sem for?a.
" Linguagem agressiva tardia. " ele suspira. " Sempre igual."
Ele troca a bolsa do líquido azul. Essa é mais escura.
" Essa vers?o… " ele diz " reage melhor com sistemas nervosos treinados. Investigadores, soldados… vocês s?o ótimos candidatos."
" Rachel… n?o grava tudo… " murmuro, perdida entre dor e memória. " às vezes… viver é… esquecer…"
" Delírios afetivos. " ele diz. " Anota."
Eu choro. N?o de dor. De raiva.
" quando o Derick descobriroq vc fez com a Rachel e comigo" engulo seco " ele cai matar todos vocês."
Samuel para.
Por um segundo.
"N?o é t?o fácil. "
- respira??o cada vez mais fraca -
Meu corpo está pesado. Muito pesado. Como se eu estivesse afundando sem água.
O azul está em todo lugar agora. Vejo quando fecho os olhos. Sinto quando penso.
" Rachel… " minha voz falha. " Desculpa… por ser dura… por te empurrar…"
Samuel se afasta. Ele já anotou o suficiente.
" Hora do encerramento. " ele diz. "A degrada??o está completa."
" Derick… " murmuro. " Obrigada… por tentar… e por favor salve -"
Meu cora??o bate errado. Falha. Volta. Falha de novo.
" Rachel… " repito, mesmo sabendo que ele n?o pode ouvir.
O frio some.
Só tem cansa?o.
— Fita encerrada. — Samuel diz, desligando algo.
O chiado continua.
Por alguns segundos.
Depois…
- clique seco

