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Tanatofobia

  Meu nome é Mateus Hoff.

  Tenho 15 anos.

  Sou estudante.

  Essas s?o as coisas fáceis de dizer. As coisas que ainda fazem sentido.

  O difícil é explicar o que está acontecendo aqui dentro.

  Eu estou olhando para o homem que me ajudou.

  O único que acreditou em mim.

  O único que me tirou daquele lugar.

  Ele está no ch?o.

  O sangue dele está espalhado pelo piso da casa, formando uma po?a escura que parece n?o parar de crescer. Eu tento n?o olhar, mas meus olhos voltam sozinhos, como se minha cabe?a estivesse me punindo.

  Ele está morrendo.

  E foi minha culpa.

  As pessoas sempre acham que têm medo da dor. Ou do escuro. Ou do que vem depois da morte.

  Eu n?o.

  Eu tenho medo da própria morte.

  Medo de desaparecer igual eles desapareceram naquela casa.

  Medo de virar só um corpo frio numa sala qualquer.

  Medo de fechar os olhos e n?o abrir mais.

  Quando vi o bast?o atravessando o peito do Alex, algo gritou dentro de mim para correr. Para me esconder. Para sobreviver.

  E eu obedeci.

  Mesmo sem sair do lugar.

  Minhas pernas travaram.

  Meu cora??o batia rápido demais.

  Minha cabe?a ficou vazia.

  Eu pensei comigo mesmo Se eu n?o olhar, se eu n?o me mexer, talvez isso n?o esteja acontecendo.

  Mas estava.

  Ele confiou em mim.

  Disse que eu n?o estava sozinho.

  Prometeu respostas.

  Agora ele está morrendo no ch?o… e eu estou vivo.

  Um homem de cabelos loiros, presos em um rabo de cavalo baixo, aproximou-se com passos tranquilos demais para aquele cenário. A barba por fazer lhe dava um ar relaxado, quase descuidado como se aquilo tudo fosse apenas mais um dia comum. Ele sorria de ponta a ponta.

  Um sorriso largo. Satisfeito.

  " Boa, Mateus. " disse, batendo palmas devagar. " Você conseguiu de novo."

  Meu est?mago se revirou.

  Ele se ajoelhou ao lado do corpo de Alex, inclinando a cabe?a para observá-lo melhor, como alguém avaliando uma pe?a quebrada. Dois dedos pressionaram de leve o peito ensanguentado.

  " Olha só pra você… " murmurou. " Quem diria, hein?"

  Ent?o riu.

  " O terceiro agente que você traz pra nós. E ainda por cima… " levantou o olhar, os olhos brilhando " …é o merda do Alex Baker."

  Meu cora??o batia t?o forte que eu achava que ele podia ouvir.

  " Ah, Henry… " minha voz saiu rouca. Eu passei a m?o pela testa, limpando o suor frio. " Você pegou ele de jeito. Eu nem senti quando você se aproximou."

  Henry deu de ombros, como se fosse um elogio pequeno demais.

  " Isso é prática."

  Ele olhou de volta para Alex.

  " N?o se preocupa. " disse num tom quase gentil. " N?o tem como ele usar o Selo de Liga??o pra se regenerar."

  Engoli em seco.

  " T-tem certeza?"

  Henry sorriu ainda mais.

  " Absoluta."

  Ele levou a m?o à própria têmpora, tocando levemente com o indicador.

  " Minha habilidade inibe temporariamente as fun??es cerebrais . " fez um estalo com a língua. " Ele vai sangrar bastante antes mesmo de recuperar a consciência."

  O silêncio ficou pesado.

  O sangue de Alex continuava escorrendo pelo ch?o, quente, vivo demais.

  " Ele n?o vai sentir agora. " completou Henry, levantando-se com calma. " Mas vai sentir depois."

  Eu n?o respondi.

  Meu corpo estava aqui, mas minha cabe?a gritava para fugir.

  Henry ent?o virou-se para mim, finalmente.

  " Você foi excelente hoje, Mateus. " disse, apoiando a m?o no meu ombro. " Está ficando cada vez melhor em atrair eles. Cada vez mais convincente."

  Meus dedos tremiam.

  " Eu… eu só fiz o que vocês pediram."

  "Exatamente. " ele sorriu. " E é por isso que você é especial."

  Stolen content warning: this tale belongs on Royal Road. Report any occurrences elsewhere.

  Olhei de relance para Alex, imóvel.

  Meu peito apertou.

  " Quando isso acaba? " perguntei, quase num sussurro.

  Henry inclinou a cabe?a, pensativo.

  "isso nunca acaba"

  Ele come?ou a sair pela porta

  XX/03/2020 – México

  O primeiro tiro ecoou dentro do ?nibus como um trov?o preso numa lata.

  Eu estava no banco do meio, encostado na janela, reclamando do calor e do cheiro de estofado velho. Alguém atrás de mim ria de alguma piada idiota. Era uma excurs?o escolar. Era pra ser só isso.

  O ?nibus freou bruscamente.

  " Que merda foi essa? " ouvi o professor de história murmurar.

  Antes que alguém pudesse levantar da cadeira, a porta foi arrancada

  Homens armados subiram. Roupas escuras, rostos cobertos, símbolos pintados nas jaquetas.

  Los Olvidados.

  O nome veio depois. O medo veio antes.

  " Todo mundo quieto! " gritou um deles, apontando o fuzil para nossas cabe?as.

  A professora de biologia tentou falar.

  " Por favor, s?o só crian?as"

  O disparo interrompeu a frase.

  O corpo dela caiu no corredor do ?nibus, o sangue escorrendo entre nossos pés. Alguém gritou. Alguém come?ou a chorar. Eu senti meu est?mago se revirar e um gosto metálico subir pela garganta.

  " Próximo professor que abrir a boca morre. " disse outro, calmamente.

  Eles nos tiraram do ?nibus como gado. Um por um. Cabe?as baixas. Armas nas costas. Ch?o quente sob os tênis.

  E ent?o veio a casa.

  Aquela casa.

  Grande demais. Verde demais. Silenciosa demais.

  As portas se fecharam atrás de nós com um som seco.

  No primeiro dia, eles ainda chamavam aquilo de procedimento.

  " Vai doer um pouco. " disse Henry, sorrindo sem mostrar os olhos.

  Eu vi as seringas.

  O líquido azul dentro delas parecia vivo, brilhando sob a luz fria. Quando a agulha entrou no meu bra?o, o mundo explodiu.

  Minha pele queimava por dentro. Meu corpo se contorcia sozinho. Eu gritava, mas ninguém respondia.

  " Anota isso. " disse alguém. " Resposta intensa."

  No segundo dia, eu já n?o tinha mais voz para gritar.

  No terceiro, comecei a rezar para desmaiar.

  No quarto, desejei morrer.

  Crian?as eram levadas para salas diferentes. Algumas voltavam tremendo. Outras… n?o voltavam.

  " Mateus… " sussurrou Diego naquela noite. " A gente vai fugir."

  Eu mal consegui virar o rosto.

  " Eles abrem as portas às três da manh?. Tem só um guarda. A gente corre pro mato e—"

  " Eles v?o matar a gente. " interrompi.

  " Eles já est?o fazendo isso! " ele sussurrou. " Você n?o quer viver?"

  Eu queria.

  Queria desesperadamente.

  Foi por isso que, na manh? seguinte, quando me chamaram para outra sala, eu falei.

  " Eles v?o tentar fugir. " disse com a voz quebrada. " Hoje à noite."

  Henry me olhos nos olhos de uma forma estranha.

  " Tem certeza? "

  Eu assenti.

  " Eu… " engoli o choro. " Eu posso ajudar você."

  " Em troca… " minha voz falhou " …me aceitem no cartel."

  Silêncio.

  Depois, um sorriso.

  Naquela noite, eu ouvi os tiros.

  Ouvi os gritos.

  Ouvi meus colegas correndo… e caindo.

  Eu n?o me movi.

  Fiquei parado, abra?ado aos próprios joelhos, repetindo na cabe?a que era para sobreviver. Que era necessário. Que n?o tinha outra escolha.

  Mas isso é mentira.

  Eu escolhi.

  Eu sacrifiquei todos.

  03/09/2020

  Passei meses naquele inferno que chamavam de quartel, mas que para mim sempre foi só uma jaula, um lugar onde a gente esquecia até do próprio nome.

  E, nesse tempo, conheci gente que… bom, eu n?o sei até hoje se deveriam ser chamados de pessoas.

  O primeiro deles foi o Roberto.

  Chamavam ele de El Pistoleiro, mas o apelido n?o fazia justi?a ele era mais silencioso que uma sombra, mas quando disparava… meu Deus. Cada tiro parecia uma senten?a.

  Eu nunca entendi ele direito. Um dia perguntei, meio sem pensar:

  " Por que você tá num cartel se você odeia cartéis?"

  Ele estava limpando a o sangue de sua roupa. Parou por um instante, respirou fundo e disse, sem olhar pra mim

  " Porque minha esposa morreu… e meu garoto vai morrer também, se eu n?o pagar o tratamento.

  A voz dele vacilou um pouco. " Fibrodisplasia Ossificante Progressiva. Uma doen?a que transforma músculo em osso."

  " A droga da vida n?o me deixou op??es. Ent?o agora trabalho com monstros pra salvar quem sobrou."

  Eu n?o sabia o que responder. Só fiquei ali, ouvindo aquele homem seco se desmontar por dentro enquanto tentava fingir que n?o estava sentindo nada.

  Depois teve o Fernando.

  Com ele era diferente… muito diferente.

  O Matador n?o parecia humano. Ele matava como quem respira sem hesitar, sem pensar, sem remorso. O Henry me contou que Fernando era um assassino de aluguel conhecido no país inteiro… mas que o motivo dele continuar respirando era um mistério.

  " Ele é um vazio ambulante " disse Henry uma vez, bebendo café como se fosse cerveja. " Um cara que só mata porque n?o tem mais nada pra fazer. é poeticamente deprimente."

  E eu acreditava. O olhar do Fernando era desligado. Como se nada no mundo importasse o suficiente pra alcan?ar ele.

  Mas ninguém era t?o intenso quanto o Henry.

  Cabelos loiros presos num rabo de cavalo, uma barba por fazer que deixava ele com cara de lunático estiloso e um sorriso permanente de quem achava gra?a até na própria insanidade.

  Henry era o tipo de cara que fazia uma piada no meio de uma execu??o ele n?o era membro do cartel mas sim da máfia oscura.

  Um dia ele me puxou pelo colarinho e disse, com aquele olhar doentio brilhando:

  " Você sabe por que eu t? aqui, né?"

  " Fiscalizar o projeto…? " arrisquei.

  Ele riu.

  " Isso também. Mas o principal é matar um cara."

  Ele fez um sinal de arma com a m?o e apontou pra própria cabe?a.

  "Alex Baker. O desgra?ado que matou meu irm?o."

  Bateu no meu peito, leve, como quem dá um aviso de amigo:

  " E eu vou matar ele. Mesmo que eu precise atravessar o inferno usando chinelo."

  Ele falava tudo sorrindo.

  Mas n?o era humor.

  Era raiva pura vestida de sarcasmo.

  Henry disse que precisava conversar. O que significava, como sempre, me arrastar pra algum lugar e me jogar no meio de uma loucura nova.

  Entramos numa cafeteria pequena, meio velha, mas com cheiro bom de café passado na hora. A gar?onete veio t?o rápido que quase derrubou a bandeja.

  " O que v?o querer?"

  " Dois cafés " disse Henry, apoiando os cotovelos na mesa como se estivesse planejando uma chacina. " Bem fortes. O garoto aqui precisa acordar pra vida."

  A gar?onete anotou e saiu, bufando.

  Ele virou pra mim.

  " Mateuzinho… meu garoto fiel… minha cria da desgra?a… " falou com um sorriso que fazia meu est?mago gelar. "Tenho uma miss?o deliciosa pra você."

  Engoli seco.

  " O que é?"

  " Lembra daqueles duais agentes da OMCB que pegamos? que veio mexer com o Ernesto…"

  " Sim… uma dela gritava tanto que até eu fiquei com dó."

  " Ah, ela gritava como uma ópera barata. " Henry riu. " Enfim… agora mandaram outro agente."

  Ele piscou, teatral.

  " E o melhor: é o Alex. Meu Alex. Meu docinho."

  "Tu é muito tchola cara"

  O café chegou. Henry agradeceu como se fosse um cavalheiro britanico. Depois soprou o café, tomou um gole, fez uma careta absurda e continuou

  " Isso é preconceito só porque sou francês tá mas voltando ao assunto eu quero que você e o Pistoleiro fa?am o seguinte…"

  Ele levantou o dedo, como se estivesse dando aula.

  " V?o até a base do norte. Matem todo mundo."

  Outro gole de café.

  " Você vai fingir ser refém. O Pistoleiro vai neutralizar o Alex."

  Um sorriso enorme.

  " E, no caso dele falhar… bem… você ganha a confian?a do Alex."

  Ele bateu na mesa.

  " E o traz direto pra casa verde. Entendeu?"

  Senti meu est?mago afundar.

  " Mas… Henry… e se eu n?o o convencer?"

  Ele riu t?o alto que a gar?onete olhou feio.

  "Se der errado?"

  Bateu no meu ombro.

  " Garoto… tudo sempre dá errado. A gra?a é essa!"

  Apoiou o queixo nas m?os.

  " Mas eu confio em você."

  A express?o dele mudou por um segundo só um segundo para algo real.

  Duro. Frio.

  " N?o me decepcione."

  Eu engoli seco... e apenas balancei a cabe?a.

  Porque ali n?o existia escolha.

  

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