01/09/2020 - Londres
Nos subúrbios de Londres, a distancia dos carros se misturava ao zumbido inc?modo do despertador. Abri os olhos devagar, sentindo o ar frio do quarto e o cheiro de café velho vindo da cozinha. Meu apartamento estava uma bagun?a, pilhas de papéis sobre a mesa, roupas jogadas no sofá e uma pilha de lou?a que eu prometia lavar 'amanh?' há uma semana.
Meu nome é Alex Baker, vinte e dois anos, investigador da OMCB.
Levantei-me, passei a m?o pelos cabelos pretos desgrenhados e encarei meu reflexo no espelho rachado da parede. Olheiras fundas, express?o cansada nada que um banho gelado e um terno preto n?o resolva.
Depois de me vestir, ajustei a gravata padr?o do pesquisador e peguei a pasta de relatórios. O relógio marcava um pouco mais das sete. Tranquei a porta, desci as escadas correndo e fui direto para o ponto de ?nibus.
Mais um dia na OMCB. E, como sempre, eu já senti que n?o seria um dia tranquilo.
Cheguei à sede da OMCB com o vento frio cortando meu rosto. O céu ainda estava cinza, típico de Londres, e as janelas do prédio refletiam aquele tom de manh? arrastado que ninguém queria olhar.
Na frente da entrada, encostado num dos pilares, estava Holland loiro, óculos tortos e aquela cicatriz enorme atravessando o rosto. Ele segurava dois copos de café e me olhou com cara de quem já tinha contado os minutos.
" Você tá meia hora atrasado, Alex. O café já tá quase virando gelo. " disse ele, entregando um dos copos.
Suspirei, peguei o café e dei um gole. Estava realmente de manh?.
"Ontem fiquei revisando relatórios até as três da manh?. Achei que meus olhos iam pedir arrego antes de mim."
Holland soltou uma risada curta.
"Você deveria aprender a dormir como uma pessoa normal."
" E perder o charme das olheiras? Nem pensar. " ironizei, ajeitando a gravata. "E você? Quais s?o os planos pro dia?"
" Interrogatório. O Lohan capturou uma gangue que possuía ben??es pra roubar bancos. Quarenta e oito milh?es em duas semanas. Quero descobrir como diabos fizeram isso sem queimar o próprio corpo no processo. " Ele deu um gole no café, o olhar se acendeu. "Aposto que tem algum pai prejudicado no meio."
"Você e suas teorias de padre demoníaco " revirei os olhos. "Faz dois meses que eu n?o piso em uma miss?o de campo. Acho que vou ver se o Rafael tem algo interessante pra mim."
" Boa sorte. O Rafael anda distribuindo miss?o como castigo divino ultimamente. " Ele deu um meio sorriso. "Ah, e a Liz quer falar com você. Disse pra te lembrar que é importante."
" Liz? Importante? " arqueei a sobrancelha. "Isso nunca termina bem."
"Ent?o tenta n?o morrer até o almo?o. Me encontra no refeitório depois, beleza?"
" Fechado. " dei um último gole no café e comecei a andar em dire??o ao prédio.
Lá dentro, o caos de sempre. Investigadores andando de um lado pro outro com pastas nas m?os, telefones tocando sem parar e o som de impressoras competindo com conversas apressadas. O cheiro de café velho e papel molhado dominava o ar.
Algumas meninas do departamento de pesquisa estavam escoradas contra a parede, trocando risadinhas enquanto observavam o corre-corre. Pareciam ser as únicas que n?o estavam sendo devoradas pelo estresse.
Eu segui pelos corredores, tentando encontrar o Rafael.
" Eu n?o devia fazer isso " murmurei, parando perto de uma coluna. " Mas vai demorar uma eternidade pra achar ele."
Tirei meu baralho do bolso interno do terno. As cartas estavam gastas, as bordas amareladas pelo tempo. Puxei uma ao acaso " Dois de Copas."
" Mensagem sigilosa vai ter que servir. " sussurrei.
Meus olhos come?aram a emitir um leve brilho amarelado. As linhas da carta se moveram, formando símbolos que apenas eu conseguia entender. Um calor percorreu meus dedos e, por um instante, o som do prédio desapareceu.
" Sala catorze. " murmurei, guardando o baralho. " Achei você, velho."
Caminhei até lá. A porta estava entreaberta, e lá dentro, Rafael cerca de trinta anos, cabelo preto repartido e aquelas marcas roxas que percorriam seu corpo como veias de tinta arrumava uma pilha absurda de documentos.
"Oi, Rafael. " disse, entrando com meu melhor sorriso de 'n?o quero te irritar muito'.
Ele nem levantou o olhar.
" Deixa eu adivinhar... você quer uma miss?o de investiga??o."
" Você é rápido."
" Sou experiente. E também é a única raz?o pela qual você aparece por aqui. " Ele levantou o olhar, arqueando uma sobrancelha. " Como me achou t?o rápido?"
" Usei o Lote de 53 Destinos."
Rafael parou o que estava fazendo e me encarou como se eu tivesse confessado um crime.
" Você é completamente irresponsável. Usar uma bên??o dentro da OMCB? Quer mesmo ser suspenso de novo?"
"Relaxa, n?o aconteceu nada. " dei de ombros. " Ent?o tem miss?o? T? ficando louco com relatórios."
Ele bufou, largando os papéis.
" Me ajuda com essa papelada e eu talvez tenha algo pra você."
Suspirei, mas fui até a mesa. A montanha de papéis parecia viva, crescendo cada vez que eu organizava uma pilha.
" Isso é tortura disfar?ada de trabalho, sabia? " comentei, separando formulários e assinaturas. " Sério, a OMCB devia classificar isso como crime."
" Menos drama, mais eficiência. " respondeu Rafael, sem olhar pra mim.
" Você ficou sabendo da gangue que o Lohan pegou? Aquela que usava bên??os pra roubar bancos?"
" Sim. " ele respondeu, direto. " E antes que pergunte, n?o é o tipo de miss?o que eu vou te dar."
" Ah, que pena. " ironizei. " Já estava imaginando eu em um tiroteio santo."
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" O dia em que te deixarem fazer um interrogatório é o dia em que o inferno congela."
Depois de um bom tempo e vários suspiros eu consegui finalmente dar conta daquela bagun?a.
" Pronto. " estalei os dedos. " Agora, sobre aquela miss?o"
Rafael pegou um arquivo grosso e me entregou.
" Aqui. Mas, por favor, Alex... " ele me olhou com cansa?o. " Tenta n?o transformar isso em um incidente diplomático."
Peguei o arquivo, escondendo um sorriso.
" Prometo nada."
Ele revirou os olhos.
" Vai, antes que eu mude de ideia."
" Valeu, chefe. " bati de leve na mesa e saí, abrindo o arquivo enquanto caminhava pelo corredor.
O nome na capa me fez parar.
Caso: Ernesto Moreno — México.
Um político internacional, o que ele fez para estar no radar da OMCB
Enquanto andava pelos corredores da sede, abri o arquivo e comecei a folhear as páginas. As letras pareciam dan?ar com o balan?o dos meus passos, mas o suficiente pra entender o básico.
Nome do alvo: Ernesto Moreno.
Idade: 47.
Ocupa??o: Político mexicano, ex-ministro das rela??es internacionais.
Situa??o atual: Suspeita de envolvimento com tráfico de crian?as e desaparecimento de duas agentes da OMCB em território estrangeiro.
Suspirei.
" Tráfico de crian?as, ótimo a nata da podrid?o política. " murmurei, virando a próxima página.
Havia fotos algumas borradas, tiradas de longe mostrando Moreno ao lado de figuras encapuzadas.
" Isso n?o me parece um bên??o comum " sussurrei, tocando a imagem com o dedo. " Parece uma invers?o de selo."
" Falando sozinho de novo? " uma voz soou atrás de mim.
Virei-me e vi Liz parada no corredor.
Ela segurava uma prancheta contra o peito, o crachá pendendo do pesco?o e os cabelos verdes presos num coque apressado algumas mechas soltas caíam sobre o rosto, balan?ando conforme ela respirava. O olhar dela era firme, calculado mas o meio sorriso, aquele meio sorriso, denunciava que estava tentando parecer mais tranquila do que realmente estava.
"Liz " forcei um sorriso cansado. " Fiquei sabendo que queria falar comigo."
Ela assentiu devagar, cruzando os bra?os.
" Queria mesmo. " a voz saiu mais contida que o normal. " Descobriu algo sobre o meu pai?"
Meu corpo travou por um instante. Desviei o olhar, sentindo o peso do silêncio entre nós.
" N?o" respondi baixo. " Nenhum sinal dele. Nem registros, nem apari??es, nada."
O sorriso dela se desfez na hora. Os ombros relaxaram, e o olhar firme que sempre carregava simplesmente vacilou.
" Droga " murmurou, apertando a prancheta. " Eu realmente achei que dessa vez conseguiria achá-lo."
Por um segundo, ela parecia outra pessoa vulnerável, cansada, sem a armadura de pesquisadora da OMCB.
Aproximei-me um pouco, falando com a voz mais suave que consegui reunir:
" A gente vai achá-lo, Liz. Eu prometo. Só precisamos continuar cavando nos lugares certos."
Ela levantou os olhos, hesitante, como se quisesse acreditar.
" Promessas suas costumam envolver explos?es, Alex. " tentou brincar, mas a voz falhou no final.
" Dessa vez, sem explos?es. " sorri de leve.
Por um momento, o corredor ficou em silêncio. O som distante das conversas e do barulho das máquinas parecia abafado demais. Ela respirou fundo, tentando se recompor, e ent?o falou:
" Vamos pro refeitório. O Holland disse que ia te esperar lá."
Assenti.
" Claro. E Liz " esperei que ela me olhasse. " N?o carrega isso sozinha."
Ela desviou o olhar, mas sorriu, mesmo que de forma tímida.
" Eu nunca carrego nada sozinha quando você tá por perto."
Seguimos lado a lado pelos corredores iluminados por lampadas frias. Enquanto caminhávamos, percebi que a OMCB podia ser um inferno burocrático cheio de segredos e miss?es suicidas mas às vezes, entre tanta loucura, ainda existia algo humano. Algo que valia a pena proteger.
O refeitório da OMCB parecia sempre o mesmo: cheiro de café queimado, barulho de talheres batendo nas bandejas e um clima de caos disfar?ado de rotina.
Alguns agentes conversavam sobre miss?es passadas, outros só tentavam n?o dormir em pé.
Eu e Liz atravessamos o corredor e logo encontrei o Holland, sentado em uma das mesas perto da janela. Ele acenou com um sorriso pregui?oso e três copos de café à frente.
" Vocês demoraram. " disse ele, empurrando um copo pra mim. " Eu já tava come?ando a achar que o Alex tinha sido sequestrado por um relatório."
" Quase. " respondi, me jogando na cadeira. " Mas consegui escapar antes que o Rafael me obrigasse a carimbar o inferno inteiro."
" Esse talento pra irritar superiores é sua bên??o mais poderosa. " comentou Liz, sentando ao meu lado.
" Uma maldi??o, na verdade. " retruquei, dando um gole no café. " E aí, Holland, o que você tem pra mim?"
Ele olhou pros lados, certificando-se de que ninguém estava por perto, e abaixou um pouco a voz.
" Rafael me contou que você vai pro México. Político envolvido com crian?as, desaparecimento de agentes parece o tipo de coisa que dá errado antes mesmo de come?ar."
" Isso é pra me animar ou pra eu desistir? " perguntei, arqueando a sobrancelha.
" Um pouco dos dois. " ele deu um meio sorriso e deixou uma pequena maleta debaixo da mesa. " Trouxe o que você vai precisar."
Abri a maleta. Dentro, estavam alguns equipamentos familiares: tinha uma Glock G22 uns documentos e um bigode falso
" Nossa, até que você caprichou. " comentei. "só n?o sei como usaria o bigode."
"para você parecer mais velho." Holland respondeu, rindo.
Liz olhou pra dentro da maleta também, mas o olhar dela estava distante.
"Eu ainda acho que é cedo demais para uma miss?o internacional, Alex. Você mal terminou o relatório sobre os incidentes de Londres."
" E o que você queria que eu fizesse? Esperar o tédio me matar? " fechei a maleta. "Além disso, alguém precisa descobrir o que aconteceu com os dois agentes."
"Você sempre fala como se o mundo dependesse de você resolver tudo sozinho." disse ela, cruzando os bra?os.
"N?o é que dependa..." escostei o cotovelo na mesa e dei um sorriso leve. "é que eu fico mais tranquilo quando sou eu quem corre o risco."
O silêncio é instalado por um instante. Holland me cutucou, mas sem dizer nada ele já sabia que discutir comigo nessas horas era inútil.
Por fim, Liz suspirou.
"Seu voo é amanh? de manh?. A equipe mexicana vai te encontrar no aeroporto de Monterrey. N?o faz nada estúpido antes de sair do país, tá?"
"Defina 'estúpido'." provoquei.
" Qualquer coisa que envolva você e o baralho, pra come?ar. " respondeu, levantando-se.
"Agora você está sendo especifica demais." retruquei, sorrindo.
Liz ajeitou o coque.
"Eu vou ver se consigo mais informa??es sobre o Ernesto. Talvez tenha algo nos arquivos antigos."
"Vale, cara." respondi, enquanto ela se afastava.
Holland esperou ela sair e depois olhou pra mim com um ar mais sério.
"Você sabe que ela está preocupada, né?"
"Eu sei." murmurei, olhando pro café já frio. "Mas alguém precisa ir."
Ele é forte, batendo no meu ombro.
"Ent?o vai lá e volta inteira, Baker. Sem explos?es, sem suspens?es e, se possível, sem mortes."
" Três metas impossíveis em uma viagem só. " ri, me levantando também. "Você está me superestimando."
"Te conhecendo bem." ele respondeu, já se virando. "A única coisa que dá de fazer é falar boa sorte, parceiro."
Enquanto ele se afastava, fiquei ali, sozinho na mesa, observando o reflexo das luzes no copo de café.
Miss?o no México. Ernesto Moreno. Dois agentes desaparecidos.
E, no fundo, aquela sensa??o inc?moda de que algo muito maior estava prestes a come?ar.
Peguei a maleta, respirei fundo e saí do refeitório.
Amanh?, o mundo poderia mudar e eu estaria bem no olho da tempestade.

