Eric soltou um suspiro longo, apoiando-se na beira da janela enquanto observava a bela noite sobre os céus de Aeltherra. As nuvens se tingiam em tons de cinza e azul, e o som distante dos sinos anunciava o início das prepara??es para o banquete real. Ele passou a m?o pelos cabelos, tentando afastar o cansa?o — ou talvez a irrita??o.
— Jantar com os conselheiros... — murmurou, a voz arrastada de tédio. — Porque eu t? me envolvendo nessa merda?
Virou-se, caminhando até o espelho. O reflexo mostrava um jovem, vestindo apenas a camisa branca parcialmente desabotoada, a gola caída sobre os ombros. As roupas cerimoniais estavam sobre a cama: o sobretudo escuro com o bras?o da Casa Real bordado em prata e a faixa de tecido azul que simbolizava sua linhagem.
Pegou o sobretudo com certa hesita??o, como se o toque do tecido o incomodasse. Eric ajeitou o colar de prata que pendia em seu pesco?o — o único item que ainda usava por vontade própria — e o escondeu sob a gola, suspirando outra vez.
— Vamos lá… mais um papel pra representar — disse baixo, for?ando um sorriso sem vontade.
Ao fundo, o som da porta sendo batida discretamente anunciou a chegada do criado.
— Jovem mestre, todos já o aguardam no sal?o principal.
— Já vou — respondeu Eric, com a voz distante.
Ele se virou uma última vez para o espelho, fitando o reflexo como quem encara um estranho.
“Eu? Preso num jantar de luzes.” — pensou, com um meio sorriso amargo.
Ajeitou a capa, endireitou os ombros e caminhou até a porta, sentindo o eco dos passos ressoar no quarto.
O som das portas do sal?o principal se abriu com um estalo seco, ecoando entre os vitrais e colunas douradas. E a música dos bardos cessou por um instante — o bastante para que todos os olhares se voltassem à entrada.
Eric cruzava o limiar do sal?o ao lado de Selene. Ela trajava um vestido prateado que cintilava como gelo sob a luz das lamparinas; ele, com o sobretudo real escuro, a postura ereta e um olhar firme que escondia o desconforto. As m?os dos dois estavam entrela?adas, discretas, mas visíveis o suficiente para provocar murmúrios e sorrisos entre os convidados.
O silêncio inicial se quebrou com aplausos — primeiro tímidos, depois mais fortes, até preencherem o sal?o. Nobres, generais e líderes de guildas levantaram as ta?as, alguns sorrindo com verdadeira admira??o, outros com o típico fingimento de corte.
— Que belo casal... — comentou um dos capit?es da Guarda Real, com um tom enviesado de respeito e curiosidade.
— A beleza e a for?a de Aeltherra caminhando lado a lado — completou outro, arrancando mais aplausos.
Selene sustentava o olhar com elegancia, como se estivesse habituada àquele tipo de aten??o. Eric, porém, manteve o rosto neutro, apenas curvando a cabe?a em cumprimento antes de conduzi-la até o centro do sal?o.
O rei Alaric, sentado em seu trono elevado, observava os dois com a mesma express?o impassível de sempre — olhos de quem enxerga muito além das aparências. Quando o som dos aplausos se dissipou, ele apoiou o queixo sobre a m?o e falou num tom que misturava ironia e curiosidade:
— Vocês dois... — come?ou, com um leve arquejo de sorriso. — Diga-me, por que ainda n?o se casaram?
A pergunta pairou no ar como uma faísca, e o sal?o inteiro pareceu prender a respira??o. Alguns riram baixo, outros trocaram olhares tensos, esperando a resposta.
Selene desviou o olhar para Eric, que mantinha o mesmo semblante calmo, mas com um brilho sutil de desafio nos olhos. Ele ergueu o queixo, sem soltar a m?o dela.
— Ainda n?o nos decidimos — disse, firme, a voz hesitante.
Um murmúrio percorreu a sala, e até o rei pareceu se deter por um instante — n?o em curiosidade, mas em interesse.
Selene apertou levemente a m?o de Eric, e ele sentiu o toque como um lembrete de que, naquele sal?o repleto de máscaras, apenas aquele gesto era real.
Alaric encostou-se no trono, o olhar indecifrável.
— Por que n?o unirmos as duas famílias de Aeltherra? — perguntou, num tom baixo, quase paternal, mas carregado de expectativa.
O som suave dos músicos voltou a dominar o sal?o — violinos, harpas e flautas entrela?ados num ritmo sereno e calculado. As luzes das lamparinas tremulavam sobre o mármore, refletindo nas ta?as e nos olhares curiosos que acompanhavam cada movimento do casal.
Selene inclinou-se levemente, os lábios desenhando um sorriso contido.
— Parece que o rei falou palavras bonitas hoje, — disse, num tom provocante, enquanto deixava que Eric a conduzisse até o centro do sal?o. — E, francamente, achei a proposta dele... muito atraente.
Eric a fitou de lado, sem perder o compasso da dan?a. O olhar dele — frio, firme, mas com um lampejo de ironia — cruzou o dela como uma lamina de a?o.
— Muito atraente? — repetiu, a voz baixa e seca. — N?o imaginei que você levasse as ironias de Alaric t?o a sério.
Ela riu discretamente, girando sob a m?o dele antes de voltar ao abra?o formal da valsa.
— Eu só disse que ele tem bom gosto, — sussurrou, perto o bastante para que apenas ele ouvisse. — Afinal... o herdeiro mais teimoso do reino ainda é um ótimo partido.
Eric suspirou, mantendo o rosto neutro diante dos olhares ao redor.
— ótimo partido? — murmurou, quase sem mover os lábios. — Duvido que o rei esteja pensando em amor quando fala de casamento.
— Nem eu, — respondeu Selene, fitando-o com aquele brilho travesso que misturava charme e desafio. — Mas quem disse que precisamos seguir as inten??es dele?
A música subiu de tom, e os dois giraram em meio à multid?o, a capa escura de Eric ondulando ao redor como um fragmento de sombra, contrastando com o brilho gélido do vestido dela. Por um instante, o sal?o pareceu sumir — restando apenas o som dos passos, o toque das m?os e o olhar tenso que Selene sustentava sem desviar.
— Ent?o é isso? — perguntou Eric, num sussurro carregado de ironia. — Vai me provocar até eu concordar com o rei?
Selene inclinou-se próxima o bastante para que o perfume suave do cabelo dela o alcan?asse.
— N?o, — murmurou. — Só quero ver até onde você consegue fingir que n?o quer o mesmo.
Ele desviou o olhar, contendo um sorriso involuntário.
— Cuidado, Selene. — disse, baixo. — Você fala como se soubesse demais.
Ela o fitou de volta, firme.
— E você age como se soubesse de menos.
A melodia terminou com uma nota prolongada, e o sal?o explodiu em aplausos. Eric apenas curvou a cabe?a em cumprimento, enquanto Selene sorria de forma serena, mas com aquele brilho inconfundível no olhar.
A música cessou, e um silêncio denso se instalou no sal?o. Os convidados se voltaram instintivamente quando o som dos passos firmes ecoou sobre o piso de mármore.
Alaric desceu os degraus do trono com a serenidade de quem n?o precisava se apressar — cada passo acompanhado pelo tilintar suave do ouro da coroa em suas m?os. O rei mantinha o olhar fixo em Eric e Selene, que ainda estavam no centro do sal?o, lado a lado, sob a luz dourada das lamparinas.
Quando ele parou diante deles, o murmúrio dos nobres desapareceu por completo.
O rei ergueu lentamente a coroa, o ouro antigo cintilando em reflexos pálidos de fogo.
— Eric… — disse, a voz grave ecoando como um trov?o contido. — Meu filho é segundo na sucess?o do trono, aquele que p?s fim à guerra e devolveu a paz a este reino...
Fez uma pausa, deixando o peso das palavras pairar no ar.
Os olhos do rei, antes apenas curiosos, agora pareciam medir cada respira??o de Eric.
— Talvez seja chegada a hora de retomar o que sempre lhe pertenceu.
E ent?o, sem pressa, estendeu a coroa em sua dire??o.
O gesto fez o sal?o inteiro prender o f?lego. Alguns se entreolharam, outros se ajoelharam parcialmente — sem saber se aquilo era uma oferta... ou um teste.
Selene manteve-se imóvel, os dedos ainda entrela?ados aos de Eric, sentindo a tens?o no punho dele endurecer.
Eric, porém, n?o se moveu. O olhar dele subiu lentamente até o do rei, e naquele instante, o sal?o pareceu encolher, o ar pesado demais para se respirar.
Ent?o ele falou, a voz serena, mas cortante como uma lamina.
— Eu já escolhi o meu destino. — Deu um passo à frente, sem desviar os olhos de Alaric. — N?o serei mais um rei sustentado por um trono corrompido. Este reino precisa de mudan?a, n?o de herdeiros que repitam os mesmos erros.
O murmúrio dos nobres come?ou a crescer, mas Eric continuou, firme, a voz projetando-se pelo sal?o.
— Que os velhos símbolos caiam, se for preciso. Eu n?o quero governar pelo medo... nem pela for?a. Quero que Aeltherra viva — mesmo que isso signifique destruir tudo o que ela já foi.
O silêncio que seguiu parecia pesar mais do que qualquer grito. Nenhum nobre ousou respirar alto. Alaric, imóvel diante do filho, sustentava a coroa nas m?os — e por um instante, seus olhos, antes de rei, tornaram-se os de um homem traído.
A voz dele rompeu o silêncio como um trov?o contido:
— Ingrato. — A palavra ecoou pelas colunas de mármore. — Dei-lhe abrigo, um nome, um legado. Reconstruí este reino sobre as cinzas que você mesmo deixou… e é assim que retribui? Com desprezo?
Eric ergueu lentamente o olhar. A luz das lamparinas refletia no metal de sua fivela, projetando uma sombra tênue sob seus olhos.
— Cinzas? Ruína? Acho que você realmente está louco. — suspirou pesado agora quase com raiva. — Talvez eu seja ingrato, sim, — respondeu, a voz serena, mas firme. — Mas pelo menos n?o sou idiota.
Deu um passo adiante, fazendo com que o eco dos passos cortasse o sal?o.
— Eu sei exatamente que n?o posso governar e que serei obrigado a seguir tradi??es, e também sei no que isso pode me tornar: alguém igual a vocês. E se isso me torna um traidor aos seus olhos… — ele inclinou levemente a cabe?a, com um meio sorriso amargo — ent?o talvez eu seja mesmo.
Alaric apertou os dedos em torno da coroa, o ouro rangendo sob a for?a.
— Vai abandonar Aeltherra? — perguntou, a voz carregada de fúria e incredulidade. — Virar as costas ao seu próprio povo, jogar no lixo tudo o que foi te dado?
Eric respirou fundo, desviando o olhar brevemente para Selene, que permanecia imóvel, o semblante tenso. Ent?o voltou-se ao rei.
— N?o, — disse. — Eu n?o vou abandonar Aeltherra.
O silêncio voltou, e ele concluiu com voz firme, para todos ouvirem:
— Eu voltarei, e será como um rei ou até talvez um líder que você nunca foi.
As últimas palavras ecoaram pelo sal?o como a?o contra pedra. Alguns dos nobres recuaram, outros abaixaram a cabe?a, temendo até respirar.
Alaric n?o respondeu de imediato. O olhar dele queimava — n?o apenas de raiva, mas de algo mais antigo, mais profundo: medo.
Eric soltou a m?o de Selene, endireitou os ombros e deu as costas ao trono, caminhando com passos lentos e firmes pela extens?o do sal?o. Nenhum guarda se moveu. Nenhum som o deteve.
Quando as portas se abriram com o estalo pesado do ferro, a voz do rei rompeu o silêncio pela última vez:
— Ent?o vá, Eric, mas lembre-se: se for preciso lutar contra você, certamente será para te matar.
Eric parou na soleira da porta, sem se virar.
— Eu sei muito bem das minhas próprias capacidades, e n?o me deixarei ser vencido por alguém como você.
As portas se fecharam atrás dele, abafando o murmúrio do sal?o.
As portas pesadas do sal?o ainda ecoavam quando Selene se moveu.
— Eric! — chamou, a voz cortando o corredor antes mesmo que os guardas reagissem.
Ela soltou-se por completo da postura nobre, erguendo o vestido apenas o suficiente para correr. O som apressado de seus passos contrastava com o silêncio tenso que se espalhava pelo castelo. As tochas nas paredes lan?avam sombras longas, distorcidas, acompanhando-a enquanto atravessava o corredor de pedra.
Eric já havia avan?ado alguns metros quando ouviu o chamado.
Parou.
N?o se virou de imediato.
— Você n?o pode simplesmente fazer isso e sair andando — disse Selene, alcan?ando-o, a respira??o levemente acelerada. — Eu… eu n?o esperava que fosse assim.
Ele fechou os olhos por um instante, como se organizasse os próprios pensamentos antes de responder.
— Nem eu. — A voz saiu baixa, contida. — Mas se eu ficasse mais um segundo ali… eu teria aceitado algo que jamais conseguiria sustentar.
Selene deu mais um passo à frente, ficando diante dele. A luz da tocha refletia em seus olhos claros, agora carregados de algo entre incredulidade e preocupa??o.
— Você desafiou o rei diante de todo o reino, Eric. — Ela respirou fundo. — Isso n?o é apenas uma decis?o pessoal. é uma ruptura real.
Ele a encarou, firme.
— Eu sei exatamente o que fiz.
— N?o. — Selene balan?ou a cabe?a, a voz mais baixa agora. — Você sabe o que disse. O que fez… ainda vai cair sobre você como uma avalanche.
Antes que Eric pudesse responder, o som ritmado de cascos ecoou pelo corredor lateral, rompendo a tens?o como um aviso.
Ambos se viraram instintivamente.
Do corredor surgiu Narcht, conduzindo três cavalos negros, altos e bem selados. O animal à frente relinchou baixo ao parar, o eco vibrando nas paredes de pedra. Narcht desceu com um movimento ágil, segurando as rédeas com firmeza.
— Achei que n?o seria prudente esperar lá fora. — disse, o tom calmo, mas urgente. — Depois do que você acabou de fazer… o castelo inteiro vai entrar em estado de alerta em poucos minutos.
Ele lan?ou um olhar rápido para Selene, depois voltou-se para Eric.
— Um para você. Um para ela. — apontou brevemente com a cabe?a. — E o terceiro… para eu mesmo.
Selene franziu o cenho, ainda processando tudo.
— Fugir? — perguntou, incrédula. — é isso?
Eric aproximou-se do cavalo que lhe era destinado, pousando a m?o sobre o pesco?o do animal. O toque pareceu ancorá-lo de volta à realidade.
— N?o é fuga. — respondeu, sem olhar para ela. — é escolha.
Narcht soltou um leve meio sorriso de canto.
— Tecnicamente, os guardas v?o chamar de deser??o. — disse. — Mas, sinceramente? Já chamaram coisas piores em outros casos.
Selene permaneceu imóvel por um instante, o olhar preso em Eric.
— Você vai mesmo embora… agora?
Ele finalmente a encarou.
— Se eu ficar, Selene, tudo o que eu disse lá dentro vira mentira. — A voz dele n?o vacilou. — E eu me recuso a come?ar algo novo sustentado por hipocrisia.
— Eles v?o te matar, certeza. — Narcht soltou essa com um sorriso.
O silêncio se estendeu por um segundo pesado.
Ent?o Selene avan?ou, segurando a sela do cavalo à sua frente.
— Ent?o n?o pense que vai fazer isso sozinho.
Narcht arqueou levemente a sobrancelha, mas n?o interferiu.
Eric a observou, sério — e, pela primeira vez desde o sal?o, havia algo próximo de surpresa em seu olhar.
— Você tem certeza?
Selene ergueu o queixo.
— N?o esperei que fosse assim. — disse, firme. — Mas também n?o vou fingir que n?o escolhi um lado no momento em que segurei sua m?o lá dentro.
Ao longe, vozes come?aram a ecoar — ordens sendo dadas, passos apressados.
Narcht montou no terceiro cavalo.
— Sugiro que decidam rápido. — falou. — O castelo acordou.
Eric assentiu, montando com um movimento preciso, e Selene também.
— Ent?o vamos.
As tochas tremularam quando os três cavalos avan?aram pelo corredor, deixando para trás n?o apenas o sal?o… mas a própria ideia de retorno fácil.
E, atrás deles, Aeltherra come?ava a mudar.
O silêncio pesado do corredor superior foi quebrado por um estrondo seco.
Cascos golpearam o mármore com for?a, o som ecoando como trov?es contidos pelas galerias do castelo. A cadência era rápida, urgente — três batidas sincronizadas que n?o pediam permiss?o.
Os cavalos surgiram em disparada, crinas agitadas, respira??es quentes cortando o ar frio do interior. As tochas nas paredes tremularam violentamente com a passagem, projetando sombras distorcidas que se alongavam pelos arcos do teto.
— à frente! — a voz de Narcht soou curta, firme.
N?o havia mais caminho.
No fim do corredor, uma grande janela de vitral, adornada com símbolos antigos da Casa Real, bloqueava a rota. Por um instante breve demais para hesita??o, Eric ergueu o olhar.
Selene foi mais rápida.
O ar ao redor dela caiu de temperatura de forma abrupta.
Um círculo azulado se formou à frente de sua m?o, e o som que se seguiu n?o foi um impacto — foi um estalo cristalino, limpo, absoluto.
A magia de gelo se atirou.
O vitral se estilha?ou em centenas de fragmentos, o gelo avan?ando como uma lamina invisível que quebrou o vidro antes de troca-lo. Cacos reluzentes voaram para fora como chuva de estrelas, refletindo a luz da lua por um instante quase belo.
Sem desacelerar.
Os três cavalos saltaram através da abertura, cascos raspando a borda de pedra, fragmentos de vidro e gelo espalhando-se pelo ar atrás deles. O vento noturno os atingiu em cheio, frio e cortante, arrancando capas e cabelos para trás.
O pátio externo surgiu abaixo, amplo e vazio.
Os cavalos tocaram o ch?o com for?a, relinchando ao absorver o impacto, e imediatamente retomaram a corrida, agora livres, avan?ando pelo caminho de pedra que levava ao port?o mais próximo do castelo.
Alarmes come?aram a soar.
Gritos distantes ecoaram das torres. — Eles fugiram! — Fechem os port?es!
Lanternas se acenderam nas muralhas, luzes correndo como fogo contido. Flechas ainda n?o haviam sido disparadas — n?o por falta de inten??o, mas por hesita??o. Ninguém ousava ser o primeiro a atirar no herdeiro.
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Eric inclinou o corpo sobre a sela, o olhar fixo à frente.
— N?o olhem para trás.
Os port?es externos come?aram a se mover, correntes rangendo enquanto desciam lentamente. Tarde demais.
Selene murmurou algo em tom baixo, e o ch?o à esquerda explodiu em uma fina camada de gelo, fazendo dois guardas escorregarem ao tentar se aproximar.
Narcht soltou um breve riso seco.
— Agora sim… isso já é oficialmente uma saída dramática.
Os cavalos passaram pelo v?o ainda aberto do port?o, rasgando a noite de Aeltherra. Quando cruzaram os limites do castelo, o som das correntes finalmente se fechando ecoou atrás deles — pesado, definitivo.
Do lado de fora, apenas a estrada escura, o vento livre… e o futuro incerto.
Eric respirou fundo.
Os cavalos mantinham o galope firme enquanto a estrada de pedra cedia lugar ao ch?o irregular fora das muralhas. A silhueta de Aeltherra já come?ava a ficar para trás, recortada pela lua alta e pelas tochas que ainda se acendiam nas torres.
Eric removeu levemente as ideias, ajustando o boato.
— Pela floresta. — disse, sem hesitar. — Campo aberto nos deixa visíveis demais.
Narcht acompanhou o movimento com um olhar rápido ao redor, avaliando o terreno.
– Concórdia. — respondeu. — Em campo aberto, somos alvos. Na floresta, pelo menos, a escurid?o trabalha a nosso favor.
Eles desviaram bruscamente da estrada principal, entrando no caminho estreito que levava ao limite da mata. Galhos baixos chicotearam o ar quando os cavalos avan?aram entre as primeiras árvores, o som dos cascos abafados pela terra úmida e pelas folhas caídas.
Selene olhou por cima do ombro. Ao longo, as lanternas já se espalhavam como pontos de fogo, e as vozes ecoavam, distorcidas pela distancia.
— Narcht, faz alguma coisa. — disse, direta, sem tirar os olhos da retaguarda.
Ele arqueou a sobrancelha, mantendo o controle firme das m?os.
— Alguma coisa… como o quê, exatamente?
Selene respirou fundo, a tens?o clara na voz.
— Eu n?o sei. — respondeu, seca. — Só faz qualquer coisa.
Por um instante, Narcht pareceu ponderar. Ent?o, um meio sorriso torto surgiu em seu rosto.
– Certo. “Qualquer coisa” eu sei fazer.
Narcht soltou uma das m?os da redea e fez um gesto curto no ar, quase displicente. N?o houve explos?o de mana, nem brusca no ambiente — apenas um leve tremor na luz da lua, como se o espa?o tivesse piscado por um instante.
Selene Franziu o Cenho.
— O que você fez?
Narcht manteve os olhos à frente, uma express?o calma.
— Uma.
Ela olhou rapidamente para trás, confusa.
— Só isso?
— Mais do que o suficiente. — respondeu. — Qualquer um que passar por ali vai achar que ainda está seguindo a trilha certa.
O som distante de cascos come?ou a se misturar com vozes confusas.
— Eles v?o correr… — continuou Narcht, em tom neutro. — V?o ouvir nossos passos, ver sombras, seguir caminhos que n?o existem.
Selene engoliu em seco.
— E quando perceberem?
— N?o v?o. — disse ele, simples. — N?o enquanto a ilus?o mantê-los lá.
Eric lan?ou um olhar rápido para trás, depois voltou-se para a escurid?o da floresta.
— Quanto tempo isso nos dá?
— O suficiente para desaparecer. — respondeu Narcht.
O som da persegui??o come?ou a se dissolver entre as árvores, substituído apenas pelo farfalhar das folhas e pela respira??o pesada dos cavalos.
A floresta se fechou de vez ao redor deles.
E, atrás, homens armados corriam em círculos… sem jamais perceber que já haviam perdido o caminho.
O galope diminuiu ligeiramente quando a floresta se tornou mais densa. O som dos cascos era agora abafado pela terra fofa e pelas raízes expostas, e o vento noturno carregava o cheiro úmido de musgo e folhas antigas.
Eric manteve os olhos atentos à frente.
— Quanto tempo até sairmos completamente do território de Aeltherra?
Narcht demorou alguns segundos antes de responder. O olhar dele percorreu as árvores, avaliando a inclina??o do terreno, a posi??o da lua, a trilha quase invisível sob os cascos.
— Talvez… dois quil?metros. — disse por fim.
Eric assentiu uma vez, sem desviar o foco.
— Vai dar tempo?
Narcht puxou levemente as rédeas, ajustando o ritmo do cavalo. Um sorriso curto, quase pregui?oso, surgiu em seu rosto.
— N?o viaja.
Selene lan?ou-lhe um olhar de lado, nada convencida.
— Você tá confiante demais.
Narcht soltou um leve riso nasal.
— N?o. — respondeu. — Você que tá duvidando de mim.
Ele inclinou um pouco o corpo para frente, o tom calmo, mas firme.
— E vai ter que voltar atrás com essa palavra.
O silêncio que se seguiu n?o foi de tens?o, mas de expectativa. à frente, a floresta come?ava a rarear, e o terreno descia suavemente, indicando a proximidade do limite.
Atrás deles, n?o havia mais vozes. Nem cascos. Nem luzes.
Só a noite… e o caminho aberto para fora de Aeltherra.
Alguns minutos se passaram.
O ritmo do galope foi reduzido até se tornar uma passada controlada. As árvores come?aram a se afastar, dando lugar a um caminho mais aberto, ladeado por pedras antigas e marcas de rodas gastas pelo tempo. à frente, entre a névoa baixa da noite, erguia-se a silhueta do último port?o.
As tochas ainda estavam acesas nas torres laterais, mas n?o havia alarde. Nenhum sino. Nenhuma movimenta??o apressada.
Eric diminuiu mais um pouco o passo e falou em voz baixa:
— Naturalidade. — disse. — Se o vigia souber de algo, já era.
Selene endireitou a postura, ajustando o cabelo sobre os ombros, apagando qualquer vestígio de pressa do rosto. O olhar voltou a ser sereno, quase entediado, como o de alguém que atravessava aquele caminho pela centésima vez.
Narcht fez o mesmo, relaxando deliberadamente os ombros, soltando as rédeas o suficiente para parecer descuido — n?o fuga.
— Esse port?o costuma ficar com turnos atrasados à noite. — murmurou. — Se ninguém gritou até agora, estamos dentro do normal.
Eles se aproximaram devagar.
O rangido leve da madeira ecoou quando o vigia, apoiado na lan?a, mudou de posi??o ao notar os três cavaleiros. A luz da tocha iluminou parcialmente o rosto dele, ainda sonolento.
— Boa noite. — disse o homem, erguendo a voz apenas o suficiente. — Patrulha tardia?
Eric respondeu primeiro, o tom firme, neutro, sem pressa.
— Ordem direta. — falou. — Retorno imediato antes do amanhecer.
O vigia observou-os por alguns segundos a mais do que o confortável. O olhar passou pelas selas, pelos rostos.
Selene manteve o semblante impassível. Narcht parecia quase entediado.
Por fim, o vigia soltou um breve suspiro.
— Hm… entendível. — disse, virando-se para o mecanismo. — A noite anda estranha mesmo.
As correntes come?aram a se mover, o som metálico ecoando baixo enquanto o port?o se abria lentamente.
Eric manteve o olhar à frente.
Mais alguns passos… e eles estariam fora.
O último limite de Aeltherra estava prestes a ficar para trás.
O port?o terminou de se abrir com um rangido longo e cansado. Eric avan?ou primeiro, já além do limite das muralhas, mas algo o fez diminuir o passo.
Ele olhou para trás.
Narcht n?o estava montado.
Na pequena guarita ao lado do port?o, o vigia segurava uma caneca fumegante — e Narcht estava encostado ali, casualmente, tomando café como se aquela fosse a situa??o mais normal do mundo.
Eric franziu o cenho.
— Narcht. — chamou, num tom baixo, mas afiado. — Para de enrolar e vem logo.
Narcht ergueu a caneca em resposta, completamente à vontade.
— Calma. — disse. — Café ruim, mas honesto. N?o se recusa nessas horas.
Deu mais um gole demorado, apoiando a bota na base da guarita, enquanto o vigia apenas assentia, meio sonolento, como se conversasse com um velho conhecido.
Selene levou a m?o ao rosto, revirando os olhos.
— Só podia ser você mesmo… — murmurou. — "Trabalhando" e ainda para pra socializar.
Narcht soltou um leve riso, terminou o último gole e devolveu a caneca ao vigia.
— Obrigado. — disse. — Se perguntarem, n?o me viu.
O homem piscou, confuso.
— H?… claro?
Narcht ent?o montou de novo com um movimento tranquilo, puxando as rédeas.
— Pronto. — falou, finalmente sério. — Agora podemos ir embora.
Eric soltou um suspiro curto, balan?ando a cabe?a.
— Um dia você ainda vai matar alguém do cora??o.
Narcht sorriu de canto.
— Relaxe. — respondeu. — Se ele souber de alguma coisa… vai demorar um bom tempo pra lembrar.
Sem olhar para trás outra vez, os três cavalos avan?aram pela estrada escura além do port?o.
A estrada seguia em silêncio por alguns instantes, quebrado apenas pelo som regular dos cascos. Foi Narcht quem falou primeiro, o tom inesperadamente mais baixo.
— Foi… bom conviver com vocês. — disse. — De verdade. Mas agora—
— Para com o drama. — Selene cortou, sem sequer olhar para ele. — Parece despedida de quem vai morrer.
Narcht soltou um meio riso curto, sem humor.
— N?o é drama. — respondeu. — é só o ponto em que cada um toma o próprio rumo.
Ele diminuiu um pouco o ritmo do cavalo, ficando meio corpo atrás dos dois.
— Eric, você já tá quase diante de Myradel. — continuou. — E, agora, é o lugar mais seguro pra você. Longe do alcance direto de Aeltherra… e rápido o bastante pra se mover se algo der errado.
Eric virou o rosto para ele, sério.
— Eu vou sentir sua falta. — disse, sem rodeios. — Você foi como um irm?o pra mim.
Narcht piscou uma vez, claramente surpreso, e desviou o olhar por um segundo antes de disfar?ar com um sorriso torto.
Selene virou o rosto para o outro lado, cruzando os bra?os.
— Vocês dois est?o melosos demais. — comentou. — Tá ficando constrangedor.
Narcht fechou a express?o na hora.
— Sério? — resmungou. — Eu ainda ia me despedir de você… mas agora é melhor você tomar no cu.
Selene virou-se de imediato.
— Vai você no meu lugar.
— Chega. — Eric interrompeu, exasperado. — Vocês dois parecem duas crian?as brigando por nada.
O silêncio voltou, pesado por alguns segundos. Ent?o Narcht puxou as rédeas de vez, parando o cavalo.
— é aqui. — disse, simples.
Eric e Selene também pararam. N?o houve aperto de m?o, nem gesto exagerado. Apenas um olhar firme entre eles.
— Se cuida. — disse Eric.
Narcht assentiu.
— Vocês também. — respondeu. — E tenta n?o fugir de outro reino inteiro.
Selene soltou um bufar.
— Promessas n?o inclusas.
Narcht deu um último sorriso de canto, ent?o virou o cavalo, seguindo por um desvio lateral da estrada, desaparecendo aos poucos na escurid?o.
Eric observou até a silhueta sumir completamente.
Depois respirou fundo, endireitou a postura e voltou o olhar para frente.
— Vamos. — disse. — Myradel nos espera.
Os dois retomaram o caminho, enquanto atrás deles, sem cerim?nia ou glória, mais um la?o era deixado para trás.
A estrada mudou de textura conforme avan?avam. A terra batida deu lugar a pedras bem assentadas, e o movimento come?ou a aumentar — carro?as distantes, tochas isoladas, sentinelas postadas com mais regularidade. à frente, a silhueta de Myradel surgia imponente, muralhas altas recortadas contra o céu ainda escuro.
Eric diminuiu o passo.
— Coloca o capuz. — disse, baixo.
Selene n?o questionou. Puxou o tecido sobre os cabelos prateados, escondendo o rosto na sombra. Eric fez o mesmo, ajustando a capa para ocultar qualquer detalhe que chamasse aten??o.
Quando chegaram ao primeiro port?o, duas tochas iluminavam a passagem, e um guarda avan?ou um passo à frente, a lan?a firme nas m?os.
— Identifiquem-se. — ordenou. — Nome e propósito em Myradel.
Eric n?o respondeu de imediato. Em vez disso, levou a m?o ao pesco?o, puxou um cord?o simples, gasto pelo uso, e o lan?ou com precis?o contida.
O guarda pegou o objeto por reflexo.
Bastou um segundo.
O semblante dele mudou por completo. Os olhos se arregalaram, e a lan?a foi erguida instantaneamente, a ponta apontada direto para o peito de Eric.
— Você… — a voz falhou. — Onde conseguiu isso?
Eric manteve as m?os visíveis, afastadas do corpo.
— N?o quero confronto. — disse, calmo. — Só quero falar com o conselho.
O guarda deu meio passo para trás, claramente dividido entre o protocolo e o peso do símbolo que tinha nas m?os. Outro sentinela se aproximou, curioso.
— Abaixe a arma. — Eric continuou. — Se eu quisesse entrar à for?a, n?o estaria aqui parado.
O silêncio se estendeu por alguns segundos tensos. O guarda olhou do cord?o para Eric, depois para Selene, que permanecia imóvel, o rosto oculto.
Por fim, ele respirou fundo.
— Esperem aqui. — disse, ainda mantendo a lan?a erguida, mas sem avan?ar. — N?o se movam.
Ele virou-se rapidamente e correu para dentro da guarita, deixando os dois sozinhos diante do port?o fechado.
Selene inclinou levemente a cabe?a em dire??o a Eric.
— Isso foi mais rápido do que eu esperava.
Eric n?o desviou o olhar do port?o.
— Em Myradel, símbolos ainda falam mais alto que nomes.
As correntes come?aram a se mover lentamente, o som metálico ecoando na madrugada.
As correntes cessaram com um último rangido pesado. O port?o n?o se abriu por completo — apenas o suficiente para permitir a passagem de duas pessoas montadas.
Um segundo guarda surgiu no alto da muralha, observando-os com aten??o cautelosa. A voz dele desceu firme, sem hostilidade direta, mas longe de cordial.
— Vocês podem passar.
Eric ergueu levemente o olhar, atento.
— Mas n?o pensem que isso resolve tudo. — continuou o guarda. — Os guardas da entrada da cidade v?o querer explica??es. Muitas.
Ele fez um gesto curto com a m?o, indicando o caminho interno.
— Daqui pra frente, é com eles.
Eric assentiu uma única vez.
— Justo.
Selene permaneceu em silêncio, o capuz ainda baixo, acompanhando o movimento com cautela.
Os dois avan?aram lentamente, cruzando o v?o estreito do port?o. O som dos cascos ecoou baixo sob o arco de pedra, e por um instante breve, Eric sentiu o peso invisível de estar sendo observado de todos os angulos.
Quando passaram completamente, o port?o come?ou a se fechar atrás deles.
O guarda completou, quase como um aviso final:
— Se vieram atrás de abrigo… escolheram bem a cidade. Mas Myradel n?o protege ninguém de gra?a.
Eric seguiu em frente sem olhar para trás.
— N?o viemos pedir prote??o. — disse. — Viemos propor algo.
Selene lan?ou-lhe um rápido olhar de lado.
à frente, as luzes de Myradel se espalhavam como constela??es próximas.
A estrada principal de Myradel se estendia à frente deles, larga e bem pavimentada, iluminada por postes de luz mágica espa?ados de forma regular. Era claramente uma via importante, mas ainda assim estranha — nenhum dos dois conhecia aquele caminho, nem seus desvios, nem seus hábitos noturnos.
O silêncio confortável acabou sendo quebrado por Selene.
Ela ajeitou-se na sela, fez um leve biquinho e suspirou.
— Já tá doendo ficar esse temp?o sentada. — reclamou, com um tom claramente exagerado. — Nunca mais reclamo de cadeira dura.
Eric virou o rosto para ela, segurando um quase sorriso. Sem dizer nada, diminuiu um pouco o ritmo e emparelhou o cavalo ao dela. Inclinou-se o suficiente apenas para encurtar a distancia.
E ent?o deu um beijo rápido, simples, direto nos lábios dela.
Nada teatral. Nada prolongado. Só o bastante.
Selene piscou, surpresa por meio segundo… e logo abriu um sorriso satisfeito. Endireitou-se na sela, fazendo uma carinha orgulhosa, quase infantil.
— Pronto. — disse. — For?as totalmente renovadas.
Eric soltou um breve sopro de riso, balan?ando a cabe?a.
— Impressionante. — comentou. — Recupera??o instantanea.
Ela inclinou o rosto em dire??o a ele, fingindo seriedade.
— Magia rara. — respondeu. — Só funciona em situa??es específicas.
Eles seguiram lado a lado pela estrada desconhecida, agora com o peso da fuga um pouco mais leve — pelo menos por alguns instantes.
à frente, Myradel ainda guardava respostas difíceis.

